Occupy geral

* Por Zico Farina, diretor de Criação da Agência África

A máscara do filme V de Vingança virou uma dos ícones das manifestações globais. Primeiro em Occupy Wall Street e depois por centenas de outras cidades ao redor do planeta. O rosto branco, os bigodes e o cavanhaque fino, o semblante de deboche. Seria isso? Só isso? Não.

Quando começou, Occupy Wall Street era para mim apenas um flashmob gigante e politizado. Quem eram aquelas pessoas? O que queriam? Quais as suas propostas? Seria mais um Summer Of Love? Seria mais uma marcha dos Caras Pintadas americano? Seria o que exatamente?

Se o objetivo inicial do grupo era um protesto contra o Capitalismo, hoje parece ser mais do que isso. Não apenas pelo número de participantes que aderiram, mas também pelas causas que cada um traz consigo e fomentam e ampliam o debate sobre as “questões”. Gente de esquerda gosta da falar em “questões”. Mas em Wall Street não é de gente de esquerda que estamos falando. É mais do que isso.

Se a intenção era chamar atenção para a crise econômica global, para o colapso do Euro, para o contraste mundial entre o andar de cima e o andar de baixo, como diz o Elio Gaspari, a mobiização deu certo. Basta ver a repercussão e o número de pessoas que aderiam as marchas no mundo inteiro e também em outras cidades norte-americanas.

Mas do que estamos diante mesmo? Não sei, é cedo para saber. Isso tem a ver com a mesma força digital que insuflou a Primavera Árabe? Acho que não é do mesmo barro.

De tudo que li e acompanhei até agora, o que mais me chama a atenção são duas coisas: a organização e a capacidade de produzir conteúdo de qualidade. Dá uma olhada no naipe desses dois videos: Where do you go from here? e As We Gather Together/We are the 99%, que são belíssimas peças de propaganda.

Tem uma coisa que mais me chama atenção: quando eu era jovem e ouvia falar de manifestações contra ditaduras, opressões, sei lá mais o quê, era um tempo em que as pessoas acreditavam e eram movidas por ideologias. Hoje ninguém mais sabe o que é isso. Uma pessoa que nasceu em 1991, no Brasil, tem 20 anos. Ela não sabe e não viu inflação, hiperinflação, inflação galopante, ditadura, Guerra Fria, Cortina de Ferro, esquerda e direita. Não há uma ideologia, podem haver várias.

Outra coisa importante de ver: na internet não existe hierarquia. A natureza da web é horizontal. O mundo das grandes corporações, que hoje tem mais poder do que qualquer estado, é vertical. Ele depende disso para a sua existência, já a web aposta justamente no contrário. É um ponto. Daria para levar a experiência da web para a vida? Sim. A web é caótica como essas aglomerações.

Durante um bom tempo, pessoas deram a vida por causas. Hoje, armados de paus e coquetéis molotovs e de rostos cobertos, jovens arriscam as suas vidas por tênis Nike e um iPod novo, colocam fogo em carros e lojas para ter um pouco do sonho dos outros. Ter é igual a ser. Se não tenho na paz, terei na base da porrada.

São de valores que estamos falando. Da luta contra a ganância.  A utopia de Maio de 1968 produziu grandes distorções, será que Occupy Wall Street chegará a tanto?

Não sei. Mas uma coisa é certa: isso é só o começo. As mudanças estão batendo na porta do mundo.
Dica: Vale muito a pena dar uma googlada no assunto. Tem muita coisa boa pra se ver e pensar nos novos tempos.

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