Onde foram parar as canetas?

* Por Zico Farina, Diretor de Criação da Africa

Tinha um tempo que elas nasciam de todos os lados, tipo geração espontânea. Canetas. Sempre tinha uma Bic no seu bolso. Na mesa. Na sua mesa. Na mesa de alguém. E escrever era um princípio básico de se expressar, mas feito à mão. Canetas e lápis brotavam de tudo que era canto. Gavetas, armários, bolsas, ternos de casamento, estojos. Sempre tinha uma lá. Vermelha, azul, preta, cinza e as raras verdes. Mas estavam lá. Sempre prontas para cobrir uma folha em branco com ideias, receitas, listas de compras, desenhos ou rabiscos. Serviam para fazer bigodes em fotos e deixar o tédio do tempo passar.

Mas acabou. O mundo mudou. Ainda bem.

Onde elas estarão hoje? No cemitério da Faber Castell?

Estamos digitalizados. Completamente. Outro dia aconteceu um fato estranho. No meio da reunião, discutindo sobre os rumos de uma campanha, alguém pediu uma caneta. Vasculhamos por cima da mesa, reviramos os papéis, abrimos as gavetas e nada. Nenhuma maldita caneta.

Todos baixaram as telas do laptop para se olhar e ver onde estávamos e começamos um caçada atrás das… como é mesmo o nome disso? Canetas.

Isso. Canetas.

E nada. Até que uma alma bondosa na forma de uma secretária trouxe o tal objeto do desejo de todos, uma caneta. Era mais ou menos como ver um iPad pela primeira vez. Ou um índio vendo um espelho. Mesma coisa. E lá estava ela, na forma de um pincel atômico vermelho. Ponta grossa. Aroma de álcool e fenol. Coisa fina.

A gente começou a falar sobre isso. Como era o tempo dessas pequenas máquinas de escrever. De como era lúdico fazer um rabisco e um texto e riscar e começar de novo e puxar um risco para a palavra errada e começar de novo.

Nossos tablets, iPhones e coisas do gênero fazem as mesmíssimas coisas.

Com a grande desvantagem de nunca deixar um bilhetinho escrito no espelho do banheiro dizendo: bom dia, te amo.

Dica: parem as maquinas.

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